Prevenção às drogas: o papel da escola

Quando a escola deve iniciar um programa de prevenção às drogas? A resposta nem sempre evidente é esta: prevenção é uma tarefa educativa e se dá em dois níveis: a prevenção primária e a secundária. A primeira significa impedir o uso de todas as substâncias psicoativas, ou, pelo menos, retardar o seu início. A segunda se destina aos alunos que já experimentaram drogas (lícitas ou ilícitas), objetivando evitar evolução para usos mais frequentes e prejudiciais.

O trabalho de CPG nas duas situações preventivas tem os seguintes objetivos: conscientizar as pessoas sobre os riscos do uso de drogas; trabalhar o conceito de saúde física, psicológica e social; bem como colaborar para a construção da boa autoestima do jovem.

No programa de prevenção desenvolvido no Bandeirantes, o uso de drogas é discutido dentro de um contexto amplo de saúde, de qualidade de vida.

Para o sucesso do programa de prevenção têm contribuído vários fatores. O primeiro deles é o engajamento da Direção da Escola, na forma de apoio e investimento em infraestrutura adequada; o segundo elemento é o processo de capacitação constante dos professores envolvidos, tanto no que diz respeito ao preparo pessoal como a atualização constante sobre o assunto. O terceiro fator seria metodologia que conta com contribuições interdisciplinares para elaboração de estratégias variadas e adequadas à linguagem dos alunos, de acordo com sua faixa etária.

Por fim, o programa de prevenção deve ter grande alcance, por isso é importante sensibilizar a comunidade: corpo de professores e funcionários, pais, bem como trabalhar em parceria com o grupo de Orientação Educacional.

A avaliação contínua do trabalho é fundamental para identificar pontos fortes e fracos da prevenção.

Chance de viver

A internação compulsória não é prisão, não é criminalização, tampouco é varrer o problema das drogas para debaixo do tapete; a questão é urgente

Andrea Matarazzo | FOLHA DE S. PAULO | Opinião

Tendências/Debates – 09/08/2011

Desde a época em que implantei as melhorias na infraestrutura da região da Luz, como então subprefeito da Sé e depois secretário das Subprefeituras de São Paulo, há seis anos, venho observando atentamente o flagelo dos dependentes químicos na cracolândia.

Posso afirmar: viver em completo estado de degradação não é uma escolha consciente. Ninguém que esteja gozando minimamente de sua vontade própria pode considerar como opção a realidade dessas pessoas que seguem, todos os dias, a única alternativa que a droga lhes proporcionou como uma dura sentença de morte.

Todos sabemos quão forte e destrutivo é o vício e quão difícil é sair dele. Nos últimos dias, a internação compulsória tem sido citada como uma possibilidade real de tratamento para quem chegou ao último estágio da dependência.

O tema surge envolto em polêmica e contraposto ao direito de escolha, que é e deve continuar sendo um direito sagrado; mas se tal liberdade já está tolhida pelo uso indiscriminado de drogas, não vejo como desconsiderar a prioridade do direito à vida.

Quando um dependente ainda tem a atenção de sua família, e esta tem condições para tanto, a internação compulsória é um ato de amor. No nível mais alto do flagelo causado pela droga, ele já abandonou a família ou foi abandonado por ela. Não pode também ser abandonado pelo poder público. A meu ver, isso é omissão de socorro.

Obviamente, a internação compulsória deve ser o último estágio de uma política pública baseada na prevenção e na repressão ao tráfico, e isso não se faz apenas com polícia. Enquanto estivemos na prefeitura, lavamos as ruas duas vezes ao dia, iluminamos a região da Luz, fechamos bares, hotéis, ferros-velhos e diversos estabelecimentos ilegais usados pelo crime.

Tudo isso inibiu a presença do traficante, mas em nada melhorou as condições de saúde daqueles que por lá vagavam acendendo seus cachimbos. Para mim, essa experiência deixou claro que se aquelas pessoas não fossem afastadas dali para tratamento adequado, nada seria capaz de salvar suas vidas.

A internação compulsória não é prisão, não é criminalização, tampouco é varrer o problema para debaixo do tapete. A questão é urgente. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgou recentemente os resultados de uma pesquisa com 131 usuários de crack atendidos em uma enfermaria de desintoxicação em São Paulo.

Em 12 anos, dos 107 pacientes, 27 tinham morrido, a maior parte de morte violenta ou de AIDS; dois estavam desaparecidos; 13 foram presos e outros 22 continuavam usando a droga. Apenas 43 deles conseguiram se curar do vício. Número pequeno, mas que dá esperança.

Na edição da Folha de 31 de julho, o psicólogo americano Adi Jaffe, ele mesmo um ex-dependente, defendeu que “até a reabilitação feita à força é melhor do que nada”.

Jaffe foi tratado compulsoriamente, sobreviveu e retomou o controle sobre sua vida. Hoje, trabalha estabelecendo critérios para avaliar a qualidade do tratamento para dependentes químicos. Está vivo. Creio que todos deveriam ter a mesma chance.

*ANDREA MATARAZZO é secretário da Cultura do Estado de São Paulo. Foi secretário municipal de Coordenação das Subprefeituras de São Paulo e subprefeito da Sé (gestões Serra-Kassab), ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (1999-2001), embaixador do Brasil na Itália (2001-2002) e secretário de Energia do Estado de São Paulo (governo Covas).

Desobediência faz parte

Os mais novos transgridem mesmo: quando o processo de educação acontece, há sempre resistência

Rosely Sayão | FOLHA DE S. PAULO | Equilíbrio | 09/08/2011

Mães e pais andam espantados e/ou perplexos com a desobediência de filhos pequenos, maiores e até mesmo adolescentes. Que coisa, não? Por que será que esses pirralhos não entendem que precisam acatar o que seus pais lhes dizem?

Uma leitora conta que é uma mãe dedicada e consciente de que o seu maior compromisso na vida, hoje, é o de educar bem a filha, que tem cinco anos. Diz inclusive que, regularmente, assiste a palestras e lê coisas de qualidade a respeito do assunto.

O problema, segundo ela, é que mesmo assim se defronta com as birras que a filha faz, com manhas na hora de colocar a roupa ou comer e com pequenos escândalos – quando a garota quer ter ou fazer uma coisa que a mãe entende que não deve dar ou permitir naquele momento.

“Qual o meu erro?”, me pergunta essa responsável mãe. Certamente, muitos outros pais passam pela mesma situação e se fazem essa mesma pergunta.

Um pai, agora um tanto quanto desconsolado e assustado, enfrenta a adolescência do filho. O jovem quer sair sem hora para voltar e sem dar explicações. Além disso, o garoto sempre transgride as poucas regras que o pai tenta lhe impor.

Depois de dizer que sempre educou o filho de um modo democrático, esse pai confessa não saber o que fazer. “Será que vou ter de castigar meu filho, agora que ele cresceu?”, pergunta. Pelo menos ele não desistiu, como muitos pais de adolescentes têm feito… Qual é a questão, afinal? Por que os mais novos insistem na transgressão?

Será responsabilidade desse mundo tão transformado, da crise de valores, das escolas, das más companhias, das “famílias desestruturadas”, como muita gente gosta de afirmar?

Ou será que as crianças de hoje já nascem diferentes, mais ousadas e com “personalidade forte”? Ou, ainda, será que os pais já não sabem mais agir com autoridade?

Não, caro leitor, a questão é bem mais simples. Então, de largada vamos lembrar de um princípio básico: sempre que a educação acontece, há resistência ao processo.

Pronto: é simples assim. A relação da mãe e do pai com os filhos é sempre um pouco tensa. Por quê?

Porque os pais precisam introduzir o filho na dinâmica familiar, na convivência com os outros, na vida que a cada dia apresenta um pouco mais de desafios e, portanto, compromissos e responsabilidades, entre outras coisas. Ora, isso significa impor à criança uma determinada direção.

Comer determinados alimentos desta ou daquela maneira, tomar banho, vestir esta ou aquela roupa, ir para a escola, não comer em determinados horários, prestar contas aos pais, respeitar pessoas etc. etc. Por que a criança deveria aceitar isso de bom grado se o que ela quer é bem diferente?

Ela quer ficar vendo televisão, jogando videogame ou futebol, dormindo pela manhã ou acordada de madrugada e se colocar no centro do mundo… Isso é o que ela quer. O jovem quer se grudar ao grupo, ser plenamente aceito por seus pares, quer diversão sem fim… A juventude é curta, afinal.

Só isso já seria suficiente para nos fazer reconhecer que eles irão reclamar, resistir, usar todas as estratégias que têm à mão para demonstrar seu descontentamento. É só isso o que expressa a desobediência e a transgressão. Faz parte do jogo, não é verdade?

Mesmo tendo aprendido, eles irão insistir na transgressão. Não é assim no futebol, por exemplo? Por isso o jogo exige árbitros e penalidades para as faltas.

Então, vamos relaxar: os mais novos sempre irão transgredir, desobedecer. É um direito deles. É dever dos pais persistir com o processo educativo em curso, reafirmar posições, fazer valer o ensinado. E ter paciência.

Até quando essa situação persiste? Até a maturidade dos filhos, que deve chegar por volta dos 20 anos, se tivermos um pouco de sorte além do empenho investido.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)