O jovem e os transtornos emocionais

O aumento significativo dos transtornos emocionais em crianças e adolescentes, principalmente a depressão e a ansiedade tem gerado inúmeras preocupações. Fica difícil não nos perguntarmos por que isso estaria ocorrendo. Da mesma maneira como ocorre com os adultos, a depressão e a ansiedade em crianças e adolescentes gera alterações em seus pensamentos, emoções, comportamentos e também em seu organismo (alterações fisiológicas). Diante deste quadro, muitas vezes nos tornamos vulneráveis ao nos depararmos com dúvidas sobre qual a maneira mais correta de agir. É necessário, prioritariamente, que tenham conhecimento daquilo que está, efetivamente, acontecendo com crianças e adolescentes, a fim de conceituar adequadamente suas dificuldades e abordá-las de forma eficaz e efetiva. Além disso, também podemos nos perguntar: qual tem sido o nosso papel de educadores (pais e professores) diante do aumento e manutenção de transtornos emocionais, da depressão e da ansiedade, em crianças e adolescentes? Quais são os conceitos e idéias que passamos para eles?

De modo geral as pessoas entendem que são as situações que definem nossas emoções e comportamentos. Se uma criança ou adolescente falha numa atividade e fica triste desistindo de tentar novamente, atribuímos que foi a situação que gerou isso. O modelo cognitivo desenvolvido pelo médico psiquiatra Dr. Aaron Beck na década de 60, na Universidade da Pensilvânia, nos mostra que não é bem assim. Exaustivamente testado e apoiado por evidências empíricas, o modelo cognitivo mostra que não são as situações que definem nossas emoções e comportamentos, mas sim a forma como interpretamos e pensamos sobre as situações que nos levam a determinadas emoções e comportamentos. Vejam por exemplo, o caso da depressão: as crianças e os adolescentes deprimidos não apresentam pensamentos negativos por estarem deprimidos, mas estão deprimidos por apresentarem muitos pensamentos negativos sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. E no caso da ansiedade: as crianças e os adolescentes não deixam de enfrentar as situações por não serem capazes, mas sim por apresentarem pensamentos que superestimam a situação que vêem como ameaçadora e subestimam seus recursos internos (habilidades de enfrentamento). Ter a ciência desta inversão muda tudo na forma de como devemos lidar com a criança. Como devemos então orientar nossas crianças e adolescentes? Primeiramente nos perguntando como nós educadores interpretamos as situações do nosso próprio cotidiano. Afinal as crianças e os adolescentes aprendem com os adultos. A forma como interpretamos as situações do dia-a-dia e as atribuições que fazemos das nossas conquistas e fracassos e os das crianças e adolescentes, vão ser aprendidas por eles.

O psicólogo Martin Seligman, em suas pesquisas, desenvolveu a teoria sobre o desamparo aprendido e os estilos explicativos, para a qual a forma como as crianças e adolescentes pensam sobre as causas dos sucessos e insucessos define o otimismo e o pessimismo.

Crianças e adolescentes, que apresentam um estilo explicativo pessimista, tendem a se sentirem desamparadas, a desistir mais facilmente das tarefas e desafios, além de ficarem deprimidos com maior freqüência. Já os com estilo explicativo otimista põem fim ao desamparo e acreditam que o insucesso é apenas um contratempo passageiro e específico. Além de apresentarem melhor desempenho, elevada auto-estima, boa saúde física, habilidades sociais e de resolução de problemas, facilidade para fazer amigos, essas crianças e adolescentes lidam com os conflitos, respeitam as diferenças e apresentam metas claras e objetivas.

Por isso, é de extrema importância nos preocuparmos com a forma como transmitimos as idéias e os conceitos de sucesso e insucesso para as crianças e adolescentes.

O estilo explicativo é aprendido. É nosso papel desenvolver nas crianças e adolescentes um estilo explicativo otimista realista.

Mas afinal o que é ser otimista? É estar sempre feliz?  Sabemos que no nosso cotidiano temos que lidar com sentimentos negativos. Será que somente frases ou imagens positivas conseguem eliminar esses sentimentos?

Pesquisado através dos anos constatou-se que frases positivas, apenas, não surtem qualquer efeito. Seligman, 1942, definiu que o importante diante do fracasso é a forma como você pensa sobre esse fracasso, usando o “pensamento não-negativo”. É de Seligman a frase – “mudar as coisas destrutivas que você se diz quando sofre os reveses que a vida reserva a todos nós é a principal capacidade do otimismo”.

Portanto, Seligman, também conhecido como o “Doutor Felicidade”,  define: as bases do otimismo não estão assentadas nas frases positivas ou imagens de vitórias, mas na maneira como nós pensamos sobre as causas, sejam do sucesso ou do fracasso por que passamos.

Por isso, a diferença entre o otimista e o pessimista está na diferente forma como explicam as causas de eventos ruins ou positivos que lhes acontecem no cotidiano, ou seja, como é o seu “estilo explicativo”.

Vejam como exemplo: os otimistas entendem as situações de sucesso como mérito próprio, além de serem eventos capazes de permanecer e influenciar todas as áreas de suas vidas. Já as situações de insucesso são entendidas como situações passageiras e específicas à aquele evento, onde as causas foram provocadas por circunstâncias desfavoráveis. Os pessimistas explicam as situações de sucesso como algo passageiro e específico àquela situação, onde as causas são provocadas por circunstâncias externas. E as situações de insucesso são entendidas como eventos capazes de permanecer e influenciar todas as áreas de suas vidas, sendo eles os únicos responsáveis pelas vicissitudes.

Acreditar que os infortúnios da vida vão durar para sempre e que vão determinar tudo na vida, faz com que a criança ou o adolescente desista de tentar. A permanência e difusão de eventos ruins deixam a criança ou o adolescente sem esperanças; e isso já representa um passo rumo à depressão. Encontrar razões temporárias e específicas para os infortúnios da vida é a arte da esperança, já dizia Seligman.

Seligman, 1992, conclui que as metas “ser capaz” e “saber fazer bem” são mais facilmente operacionalizáveis e atingíveis, e que, quando atingidas, trazem inevitavelmente consigo o “sentir-se bem”, sugerindo que as metas, “ser capaz” e “saber fazer bem”, estão associadas a uma menor incidência de depressão.

Por isso, devemos estar alerta para identificar devidamente as atribuições que as crianças e os adolescentes fazem diante de seus sucessos ou fracassos, ajudando-os a desenvolver um estilo explicativo otimista realista, além de habilidades sociais e de resolução de problemas.

Serviram de fontes para esse texto:

Aprenda a ser otimista – Martin E.P Seligman – 2ª ed. Editora Nova Era – Rio de Janeiro 2005

Terapia Cognitiva. Teoria e Prática – Judith S. Beck – Editoras Artes Médicas – Porto Alegre 1997

Departamento de Orientação Educacional

Drogas: qual a alternativa? – Ferreira Gullar


Mais um texto coerente e ponderado do poeta Ferreira Gullar.

Foi publicado na Folha de São Paulo no dia 10 de junho.

Drogas: qual a alternativa? – Ferreira Gullar

Volto a um assunto que tenho abordado aqui e o faço porque considero necessário discuti-lo sempre que possível e com total isenção: o problema da liberação das drogas. Agora mesmo, uma comissão de juristas submeterá ao Congresso um anteprojeto propondo descriminalizar o porte e o plantio de maconha.
Admito que, por alguma razão, pessoas de tanta responsabilidade entendam que a descriminalização é uma medida positiva.
Ainda assim, duvido da conveniência de uma tal medida, uma vez que, no meu modo de ver, o fator principal que sustenta o tráfico de drogas é o consumidor.
Volto ao argumento óbvio, conforme o qual não há mercado para mercadoria que não se consome. Logo, se o tráfico ganhou a dimensão que tem hoje, foi porque, a cada dia, um número maior de pessoas consome drogas. Um dos argumentos usados pelos defensores da liberação das drogas é o de que a repressão não deu os resultados esperados, uma vez que o tráfico, em lugar de diminuir, aumentou.
Já discuti esse argumento, que me parece descabido. Basta raciocinar: desde que a humanidade existe, combate-se a criminalidade e, não obstante, ela não acabou. Pelo contrário, aumentou. Devemos concluir, então, que a Justiça fracassou e que, por isso, o certo é acabar com ela? Claro que não. Se se praticasse semelhante insensatez, simplesmente poríamos fim à sociedade humana. O certo é entender que determinados problemas não têm solução definitiva, mas nem por isso devemos nos render a eles, sob pena de se tornar inviável o convívio humano.
A droga é um desses problemas. Exterminá-la definitivamente parece-nos impossível mas, por outro lado, aceitá-la é abrir mão de importantes valores que o homem conquistou ao longo de sua história. A droga é uma herança de tempos remotos, quando estava associada a uma concepção ingênua e mágica da existência.
A ciência demonstrou que os efeitos que ela provoca são resultados dos elementos alucinógenos que fazem parte de sua composição química. Ela se alimenta daquilo que, no ser humano, resiste à compreensão objetiva e racional da existência. Como talvez o ser humano jamais alcance um estado permanente de lucidez em face do mistério da vida, a droga continuará a ser necessária a uma parte da sociedade, que nela encontra compensação para suas ansiedades. Disso se valem e se valerão os produtores e vendedores de drogas.
As últimas apreensões de drogas ocorridas no Brasil indicam o crescente poderio econômico e técnico dos traficantes. São toneladas de maconha, cocaína e crack, o que pressupõe o crescimento progressivo de consumidores.
Acreditar que a legalização das drogas fará com que essas organizações clandestinas se tornem, de repente, empresas legais é excesso de boa-fé. E o que fazer com as drogas sintéticas que, por se multiplicarem rapidamente, gozam de legalidade, já que os órgãos de repressão sequer as conhecem? A legalização das drogas transformaria o Brasil num centro internacional de consumo, como é hoje a Holanda.
Outro ponto que os defensores da legalização parecem ignorar é o fato de que os consumidores de drogas -em sua maioria jovens- nem sempre dispõem de dinheiro para comprá-las e isso os leva a praticar roubos e assaltos.
Hoje, a maioria dos crimes está ligada, de uma maneira ou de outra, ao tráfico e ao consumo de drogas. Na verdade, o viciado é um aliado do traficante -já que têm interesses comuns- e o ajuda a burlar a repressão.
Amparado na lei, o viciado em drogas vai se sentir mais à vontade para consegui-la a qualquer preço, sem que a família tenha autoridade para impedi-lo, já que estará agindo dentro da legalidade.
A alternativa seria o Ministério da Saúde -que não consegue manter em funcionamento satisfatório os hospitais, por falta de verbas- passar a subvencionar o vício dos drogados?
Creio que tudo conduz à conclusão de que o caminho certo é batalhar para reduzir o número de consumidores de drogas, e isso só será possível se as autoridades, em nível nacional e internacional, se dispuserem a promover um trabalho sistemático de esclarecimento e educação dos jovens para mostrar-lhes que as drogas só os levarão à autodestruição.