A crueldade do bullying

Cândida V. Gancho
Maria Estela B. Zanini

“Aos 8 anos me mudei para uma nova cidade. Acho que por não conhecer ninguém. Ficava sozinha e engordei. Aí começaram apelidos de baleia, bicho, dragão. Como era uma cidade pequena, tinha pouca gente na escola. Todo mundo sabia. As pessoas riam de mim. Os meninos falavam e outros achavam graça.

Uma vez, na aula de artes, a professora pediu para descreverem os colegas. O menino que mais tirava sarro de mim me descreveu. Escreveu todos meus apelidos. A sala toda virou para rir de mim. Saí correndo da sala. A professora não fez nada. Ela leu os apelidos que colocaram. Um dos meninos era filho da coordenadora da escola e ela não fazia nada. Falei para ela. Ela deu um sermão na sala e só. Não tinha coragem de contar para os meus pais. Queria parecer que era normal, que não acontecia nada.

Até hoje tenho vergonha de falar em público por isso, mas consegui ser oradora da minha turma na formatura de jornalismo e sou professora de inglês.”

Depoimento visualizado no site G1.globo.com/vestibular-e-educação, em 08/05/2011

Essa menina que sofreu tanto na infância e adolescência foi vítima de “bullying”. Você sabe o que é bullying? É um conjunto de atitudes agressivas intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, de forma velada ou explícita. Pode ser adotado por um ou mais indivíduos contra outro(s), mas a intenção é sempre causar o sofrimento da(s) vítima(s).

Brincadeiras e xingamentos entre crianças e adolescentes, à primeira vista, podem ser vistos como coisas normais e corriqueiras. O problema é quando isso vem acompanhado de preconceitos, apelidos horríveis, violência física e verbal gratuitas que ofendem, humilham e acabam traumatizando as vítimas desse mal-estar. Conhecido como bullying (termo que vem do inglês “bully”, que quer dizer “valentão”), esta prática de violência está se tornando cada vez mais frequente no dia a dia dos adolescentes.

Dois episódios recentes colocaram o termo bullying na mídia, com grande destaque: o vídeo postado no Youtube, que mostra um garoto australiano defendendo-se das agressões de um colega de escola e o assassinato de 12 adolescentes, ocorrido em 07 de abril, numa escola em Realengo, Rio de Janeiro. É preciso diferenciar as brincadeiras com os colegas de escola do comportamento deliberadamente malvado que afeta a autoestima da vítima, gerando graves consequências como a depressão e abandono da escola.

Os pré adolescentes e adolescentes são especialmente afetados por esse tipo de agressão. Por viverem um período de intensas mudanças corporais, sentem-se inseguros e são mais vulneráveis. Em geral, são as mudanças físicas o pretexto para as humilhações: o bigodinho, as espinhas, o cabelo, os seios desenvolvidos, enfim, o corpo em transformação.

Ao sofrer a violência do tipo bullying, as crianças e adolescentes, sozinhos, não têm como se defender. Os colegas, embora digam repudiar esse tipo de violência psicológica e sentirem pena de quem é agredido, declaram que nada podem fazer para defendê-lo, com medo de serem a próxima vítima. A educadora Cleo Fante, autora do livro “Fenômeno Bullying” (Editora Verus), desenvolveu intensas pesquisas sobre o tema e considera que a prática do bullying é banalizada, porque pais, escola e colegas são expectadores que, por não interferirem ou não perceberem a gravidade do problema, tornam-se cúmplices.

O bullying é condenável de todos os pontos de vista, não apenas porque a vítima sofre graves consequências, mas também porque torna o ambiente hostil e insuportável para todo o grupo. A escola é um importante espaço para o desenvolvimento do respeito e da tolerância.

O agressor que não está convencido da gravidade do problema e alega que a agressão é apenas uma “brincadeirinha” com o colega, deve refletir sobre isso: quando se trata de bullying, o agressor de hoje pode ser a vítima de amanhã.

Para mais informações e textos interessantes sobre bullying:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1005201114.htm
http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/cyberbullying-violencia-virtual-bullying-agressao-humilhacao-567858.shtml